Os praticantes dssa manifestação afro-brasileira, que pode ser apresentada, preferencialmente, ao ar livre, em qualquer época do ano, comemoram seu dia no mês de junho. O Tambor de crioula ou punga é uma dança praticada por descendentes africanos escravizados no estado brasileiro do Maranhão, em louvor a São Benedito, um dos santos mais populares entre os negros. É uma dança alegre, marcada por muito movimento dos brincantes e muita descontração.
Os motivos que levam os grupos a dançarem o tambor de crioula são variados podendo ser: pagamento de promessa para São Benedito, festa de aniversário, chegada ou despedida de parente ou amigo, comemoração pela vitória de um time de futebol, nascimento de criança, matança de bumba-meu-boi, festa de preto velho ou simples reunião de amigos.
A dança não requer ensaios. Originalmente não exigia um tipo de indumentária fixa, mas nos dias atuais a dança pode ser vista com as brincantes vestidas em saias rodadas com estampas em cores vivas, anáguas largas com renda na borda e blusas rendadas e decotadas brancas ou de cor. Os adornos de flores, colares, pulseiras e torços coloridos na cabeça terminam de compor a caracterização da dançante. Os homens trajam calça escura e camisa estampada.
A animação é feita com o canto puxado pelos homens com o acompanhamento das mulheres. Um brincante puxa a toada de levantamento que pode ser uma toada já existente ou improvisada. Em seguida, o coro, integrado pelos instrumentistas e pelas mulheres, chamadas de coreiras, acompanha, passando esse canto a compor o refrão para os improvisos que se sucederão. Os temas, puxados livremente em toadas, podem ser classificados como de auto-apresentação, louvação aos santos protetores, sátiras, homenagem às mulheres, desafio de cantadores, fatos do cotidiano e despedida.
Foi a Lei nº 13.248 de 12 de janeiro de 2016 estabeleceu a data de 18 de junho como o dia do Tambor de Crioula e o inseriu no Livro das Formas de Expressão do Patrimônio Cultural Imaterial. O “Tambor de Crioula” foi catalogado pelo IPHAN como forma de expressão maranhense de origem afro-brasileira que conjuga dança circular, canto e percussão de tambores em louvor a São Benedito. Sob o sereno da noite nas praças ou no coração dos terreiros, os tributos ao referido santo não ocorrem em datas fixadas previamente, mas, normalmente, são realizados depois de encerrados o carnaval e os festejos de São João ou após o segundo sábado do mês de agosto, período que coincide com as “Rodas de Boi-Bumbá”.
Segundo o levantamento efetuado pelos pesquisadores responsáveis pelo inventário desse bem, essas duas manifestações, historicamente, ocorriam acopladas como celebrações articuladas. A “matança de boi” era e continua sendo encerrada com uma roda de tambor. Os depoimentos inclusos entre os documentos reunidos no inventário do “Tambor de Crioula”, quando se referem às suas origens, em geral fazem alusão à época da escravidão e aos mitos criados em torno da figura de São Benedito, considerado o santo protetor dos negros. Nas reminiscências dos mais antigos e nas histórias lendárias transmitidas por gerações, o santo é recriado ora como “um escravo que foi à mata, cortou um tronco de árvore e ensinou os outros negros a fazer e a tocar o tambor”, ora como um “cozinheiro do monastério que levava comida escondida em suas vestes para os pobres”.
O que se sabe é que, na prática, ele nasceu para disfarçar exercícios de briga e que, provavelmente, após a abolição da escravatura tenha mudado o caráter do ritual, incluindo a mulher como dançante, tornando-se uma brincadeira festiva. Seja como for, São Benedito é homenageado por percussionistas e dançarinas que compõem mais de sessenta grupos catalogados pelo IPHAN. Estas, embaladas pelo ritmo contínuo dos tambores e absortas nas “toadas” (confluência da percussão e voz dos “coreiros” ou cantadores), “tocam o ventre umas das outras”, num gesto interpretado como “saudação e convite”. Esse movimento coreográfico característico do bailado atinge seu ponto culminante na “punga”, mais conhecida como “umbigada”.
Entre as formas de proteção e gestão do “Tambor de Crioula” constam programas de incentivo aos compositores, apoio ao registro audiovisual e fonográfico, ou seja, medidas que visam a assegurar a transmissão dos saberes e o amparo aos antigos mestres. Aliás, no dia da proclamação e dos festejos que envolveram a inserção do Tambor no Livro de Expressões, houve grande confraternização entre os integrantes de vários grupos de Tambor de São Luis (Maranhão). Nessa oportunidade, alguns mestres, quando entrevistados, chamaram a atenção para o papel social do registro e sua importância no âmbito da “sustentabilidade dos grupos e das comunidades”. Os Mestres mais respeitados e conhecidos no Maranhão foram os Mestre Felipe e Mestre Leonardo.
André Luiz S. Marinho
(Contramestre de capoeira Angola e pesquisador de cultura popular)
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