{"id":779,"date":"2020-12-21T14:51:05","date_gmt":"2020-12-21T14:51:05","guid":{"rendered":"http:\/\/ipcb-rj.com.br\/?p=779"},"modified":"2023-02-28T13:48:57","modified_gmt":"2023-02-28T13:48:57","slug":"curt-nimuendaju-o-alemao-que-foi-pioneiro-sobre-os-estudos-indigenas-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/ipcb-rj.com.br\/?p=779","title":{"rendered":"Curt Nimuendaj\u00fa \u2013 o alem\u00e3o que foi pioneiro sobre os estudos ind\u00edgenas no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/ipcb-rj.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-3-Curt-Nimuendaj\u00fa-Etn\u00f3logo-tra\u00e7ou-o-mais-importante-mapa-dos-povos-ind\u00edgenas-no-pa\u00eds.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-780\" src=\"http:\/\/ipcb-rj.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-3-Curt-Nimuendaj\u00fa-Etn\u00f3logo-tra\u00e7ou-o-mais-importante-mapa-dos-povos-ind\u00edgenas-no-pa\u00eds-300x225.png\" alt=\"Foto 3 - Curt Nimuendaj\u00fa Etn\u00f3logo tra\u00e7ou o mais importante mapa dos povos ind\u00edgenas no pa\u00eds\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"http:\/\/ipcb-rj.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-3-Curt-Nimuendaj\u00fa-Etn\u00f3logo-tra\u00e7ou-o-mais-importante-mapa-dos-povos-ind\u00edgenas-no-pa\u00eds-300x225.png 300w, http:\/\/ipcb-rj.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-3-Curt-Nimuendaj\u00fa-Etn\u00f3logo-tra\u00e7ou-o-mais-importante-mapa-dos-povos-ind\u00edgenas-no-pa\u00eds-320x240.png 320w, http:\/\/ipcb-rj.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Foto-3-Curt-Nimuendaj\u00fa-Etn\u00f3logo-tra\u00e7ou-o-mais-importante-mapa-dos-povos-ind\u00edgenas-no-pa\u00eds.png 400w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Apesar de quando se fala em Alemanha, a lembran\u00e7a imediata \u00e9 a dos &#8220;7 a 1&#8221;, do ponto de vista cultural a liga\u00e7\u00e3o e influ\u00eancias s\u00e3o maiores. Houve uma tradi\u00e7\u00e3o de pesquisa com viajantes exploradores vindos de l\u00e1 como Johann von Spix, Karl von den Steinen e o mais famoso CARL VON MARTIUS, no s\u00e9culo 19. Todos possu\u00edam pesquisas ligadas \u00e0s ci\u00eancias naturais como a bot\u00e2nica e divulgaram seus trabalhos na Europa.<\/p>\n<p>No m\u00eas de dezembro, h\u00e1 75 anos morria um outro alem\u00e3o que iniciou a hist\u00f3ria da pesquisa indigenista no pa\u00eds, chamado KURT UNCKEL. Aos 20 anos de idade, em 1903, deixou um pr\u00f3spero emprego na f\u00e1brica de lentes em Zeiss, na Alemanha e realizou seu sonho de inf\u00e2ncia, vir para o Brasil.<br \/>\nEm 1905, o alem\u00e3o conheceu a tribo Guarani, no oeste de S\u00e3o Paulo, ficando por l\u00e1 at\u00e9 1907. Durante este per\u00edodo, ap\u00f3s cerca de um ano morando com os Apokokuva-Guarani, Unckel foi adotado como filho do cacique e paj\u00e9 AVACAUJU. Segundo seus escritos, seu batismo ind\u00edgena ocorreu na noite do dia 15 de julho de 1906. Depois da meia noite, mulheres e crian\u00e7as teriam entrado em uma casinha, onde deram in\u00edcio as dan\u00e7as e cantorias tradicionais para a ocasi\u00e3o. Perto do amanhecer, Curt foi chamado para entrar na casinha, onde encontrou Avacauju acompanhado por um MARAC\u00c1 (esp\u00e9cie de chocalho ind\u00edgena sagrado), enquanto molhava sua testa com \u00e1gua retirada de uma cuia, ap\u00f3s repetir a a\u00e7\u00e3o v\u00e1rias vezes o paj\u00e9 anunciou seu batismo, a partir daquele momento nascia o maior etn\u00f3logo e indigenista da 1\u00aa metade do s\u00e9culo XX, seu nome ind\u00edgena torna-se NIMUENDAJ\u00da (&#8220;aquele que fez sua morada&#8221;). O primeiro nome foi &#8220;abrasileirado&#8221; para Curt, e, em 1922, ele se naturalizou brasileiro, tendo abandonado o sobrenome original.<\/p>\n<p>Vivendo como um membro da comunidade ind\u00edgena, CURT NIMUENDAJ\u00da vivenciou a persegui\u00e7\u00e3o sofrida pela tribo Apokokuva-Guarani, o que causava morte e destrui\u00e7\u00e3o. Ele se envolve na principal discuss\u00e3o da causa indigenista do come\u00e7o do s\u00e9culo que era sobre &#8220;exterminar os ind\u00edgenas ou proteg\u00ea-los das explora\u00e7\u00f5es ocorridas em suas terras&#8221;. A situa\u00e7\u00e3o atinge o estopim ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de um documento do conhecido zo\u00f3logo higienista alem\u00e3o HERMANN VON IHERING, no qual o autor usa a express\u00e3o &#8220;exterm\u00ednio de \u00edndios&#8221;, ao classificar os &#8220;\u00edndios mansos&#8221; e &#8220;\u00edndios bravios&#8221; (nessa lista inclu\u00eda os \u00edndios da tradi\u00e7\u00e3o J\u00ea, os Kaigang de SP e os Botocudos de SC). Curt Nimuendaj\u00fa se mostra totalmente contr\u00e1rio ao coment\u00e1rio de seu conterr\u00e2neo, inclusive tendo publicado um artigo no jornal alem\u00e3o Deutsche Zeitung, em novembro de 1908, argumentando que suas propostas eram absurdas e isso come\u00e7a a chamar a aten\u00e7\u00e3o da comunidade internacional para o tema e lhe dar prest\u00edgio. Uma das maiores preocupa\u00e7\u00f5es de Nimuendaju eram as consequ\u00eancias do contato dos \u00edndios n\u00e3o apenas com o homem civilizado, mas tamb\u00e9m com outros grupos tribais. Por isso, encarregou-se de elaborar projetos de pacifica\u00e7\u00e3o de grande n\u00famero de tribos e sugeriu procedimentos destinados a regular os contatos inter-tribais.<\/p>\n<p>Seu primeiro trabalho etnogr\u00e1fico de enorme import\u00e2ncia e repercuss\u00e3o, apareceu em 1914 em uma renomada revista alem\u00e3 (Zeitschrift f\u00fcr Ethnologie), sob o t\u00edtulo (aqui traduzido) de &#8220;Os mitos de cria\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o do mundo como fundamentos da religi\u00e3o dos Apapokuva Guarani&#8221;. Com esse trabalho o interesse por suas pesquisas e expedi\u00e7\u00f5es chega aos museus da Alemanha que resolvem financiar seus estudos.<\/p>\n<p>Com o fim do apoio financeiro dos museus da Alemanha, devido \u00e0 crise da Rep\u00fablica de Weimar Curt passa a receber outros apoios internacionais, o mais importante veio de ROBERT LOWIE, um dos grandes nomes da antropologia americana, especialista nos \u00edndios norte-americanos. Os dois trocaram cartas durante anos, sem nunca terem se conhecido. Gra\u00e7as a essa aproxima\u00e7\u00e3o, Nimuendaj\u00fa p\u00f4de publicar nos Estados Unidos suas monografias sobre os povos Apinay\u00e9, Xerente, Canela e Tikuna. A s\u00e9rie de ensaios sobre a organiza\u00e7\u00e3o social das tribos de L\u00cdNGUA J\u00ca (tronco lingu\u00edstico ao qual ele se tornou um dos maiores especialistas), publicada nos Estados Unidos a partir de 1937, \u00e9 considerado um dos mais importantes trabalhos de sua volumosa obra.<\/p>\n<p>Nimuendaj\u00fa publicou trabalhos em alem\u00e3o, ingl\u00eas e portugu\u00eas. Produziu um Mapa Etno-Hist\u00f3rico considerado \u00fanico, em 1940, que foi impresso em 1981 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). Ele \u00e9 um gigantesco banco de dados sobre a distribui\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o e no tempo das tribos ind\u00edgenas brasileiras, identifica\u00e7\u00e3o do nome das tribos ind\u00edgenas brasileiras atuais e extintas, conhecidas at\u00e9 aquela data. Tamb\u00e9m \u00e9 at\u00e9 hoje um importante fonte de pesquisa para sua classifica\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica, localiza\u00e7\u00e3o atual, localiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e o sentido de suas migra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em 10 de dezembro de 1945, Curt Nimuendaj\u00fa faleceu numa aldeia dos Tuk\u00fana, perto de Santa Rita, no alto Solim\u00f5es. Sua morte ainda gera muitas d\u00favidas, pois h\u00e1 vers\u00f5es que afirmam ele ter sido envenenado pelos pr\u00f3prios membros da tribo descontentes com o envolvimento amoroso do mesmo com uma das mulheres da tribo e outra trata de uma morte encomendada por lideran\u00e7as locais da regi\u00e3o, devido sua atua\u00e7\u00e3o na causa indigenista.<\/p>\n<p>Seu acervo foi coletado e distribu\u00eddo entre os museus de Gotemburgo (Su\u00e9cia), Hamburgo, Dresden, Leipzig (no Museu Grassi localizado nessa cidade, parte do acervo foi destru\u00edda por bombardeios na II Guerra), Munique e Berlin (todos na Alemanha), o Museu Em\u00edlio Goeldi (Par\u00e1) e o Museu Nacional, infelizmente parte foi destru\u00edda no fat\u00eddico inc\u00eandio do dia 02\u221509\u22152018. O acervo s\u00f3 n\u00e3o foi totalmente perdido gra\u00e7as ao empenho de pesquisadoras do Museu que vinham se dedicando \u00e0 digitaliza\u00e7\u00e3o de seu material. Havia um acervo fotogr\u00e1fico composto por 457 fotos em papel, ap\u00f3s a digitaliza\u00e7\u00e3o o foram reunidas em um DVD chamado \u00cdndios do Brasil.<\/p>\n<p>O resultado das quatro d\u00e9cadas de estudos etnol\u00f3gicos foram 34 pesquisas de campo, majoritariamente pioneiras, entre mais de 50 etnias ind\u00edgenas e um grande n\u00famero de publica\u00e7\u00f5es sobre lingu\u00edstica, antropologia e arqueologia ind\u00edgena, em parte lan\u00e7adas apenas post mortem. O alem\u00e3o que mais amou e defendeu a cultura brasileira \u00e9 uma unanimidade entre a antropologia nacional, mas sequer \u00e9 citado na historiografia do pa\u00eds, muito menos nas grades do ensino m\u00e9dio. Que aqui se consiga fazer um pouco de justi\u00e7a ao seu nome.<\/p>\n<p>Foto: Acervo pessoal do Curt Nimuendaj\u00fa, tirada numa expedi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 Luiz S. Marinho<\/p>\n<p>(Contramestre de capoeira Angola e pesquisador de cultura popular)<\/p>\n<p>Veja mais sobre cultura brasileira:<\/p>\n<p><span style=\"\">Facebook &#8211; Link: <\/span><span style=\"\">www.facebook.com\/andre.marinho.9277\/posts\/10219008228703113<\/span><br \/>\n<span style=\"\">Instagram &#8211; @bondeangola<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apesar de quando se fala em Alemanha, a lembran\u00e7a imediata \u00e9 a dos &#8220;7 a 1&#8221;, do ponto de vista cultural a liga\u00e7\u00e3o e influ\u00eancias s\u00e3o maiores. 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