{"id":770,"date":"2020-11-11T23:23:36","date_gmt":"2020-11-11T23:23:36","guid":{"rendered":"http:\/\/ipcb-rj.com.br\/?p=770"},"modified":"2023-02-28T13:49:38","modified_gmt":"2023-02-28T13:49:38","slug":"a-batalha-de-ambuila-mbwila-a-queda-da-ultima-resistencia-africana-a-portugal","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/ipcb-rj.com.br\/?p=770","title":{"rendered":"A Batalha de Ambuila (Mbwila) \u2013 a queda da \u00faltima resist\u00eancia africana \u00e0 Portugal"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/ipcb-rj.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto-2-Imagem-de-missa-no-Reino-do-Congo.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-771\" src=\"http:\/\/ipcb-rj.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto-2-Imagem-de-missa-no-Reino-do-Congo-300x206.jpg\" alt=\"Foto 2 - Imagem de missa no Reino do Congo\" width=\"300\" height=\"206\" srcset=\"http:\/\/ipcb-rj.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto-2-Imagem-de-missa-no-Reino-do-Congo-300x206.jpg 300w, http:\/\/ipcb-rj.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto-2-Imagem-de-missa-no-Reino-do-Congo-710x488.jpg 710w, http:\/\/ipcb-rj.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto-2-Imagem-de-missa-no-Reino-do-Congo-320x220.jpg 320w, http:\/\/ipcb-rj.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Foto-2-Imagem-de-missa-no-Reino-do-Congo.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>No final de outubro de 1665, houve o \u00faltimo grande conflito na \u00c1frica, no s\u00e9culo XVII, entre um reino africano e o imp\u00e9rio portugu\u00eas. O resultado dele trouxe a estrutura necess\u00e1ria para o crescimento do tr\u00e1fico negreiro criado por Portugal e o fortalecimento do regime escravocrata no Brasil-col\u00f4nia.<\/p>\n<p>No Brasil, incrivelmente, n\u00e3o se estuda sobre a hist\u00f3ria deste sofrido continente, como se seus acontecimentos n\u00e3o tivesse rela\u00e7\u00e3o direta com a hist\u00f3ria brasileira. \u00c9 important\u00edssimo cada vez mais estud\u00e1-lo para se entender as mazelas sociais contempor\u00e2neas e desmascarar a mentira do NEGACIONISMO defendido pelo atual Governo. Quando se nega o racismo e at\u00e9 a presen\u00e7a do portugu\u00eas na \u00c1frica, na verdade, se est\u00e1 colocando em pr\u00e1tica um perverso projeto ret\u00f3rico de INVISIBILIZA\u00c7\u00c3O da barb\u00e1rie que foi a escraviza\u00e7\u00e3o dos africanos, uma das maiores atrocidades ocorridas na hist\u00f3ria da humanidade.<\/p>\n<p>O Imp\u00e9rio do Congo e o de Portugal iniciaram contato a partir de 1483, durante a dinastia do rei D. Jo\u00e3o II. O reino africano era comandado tamb\u00e9m por um rei que recebia o t\u00edtulo de MANICONGO, tinha 12 conselheiros e era muito respeitado. Os dois reinos foram importantes parceiros comerciais, aonde se fornecia sal, metais e tecidos animais para a Europa, em troca de armas contra os reinos inimigos da regi\u00e3o, naquele momento era um dos maiores reinos da \u00c1frica Central, sua capital chamava-se MBANZA CONGO, que mais tarde se chamaria S\u00e3o Salvador, tinha como atividade comercial, agricultura, pastoreio e metalurgia (reservada aos nobres). Esse interc\u00e2mbio cultural propiciou a convers\u00e3o do rei (NZINGA NKUNVU) ao catolicismo e at\u00e9 o envio de um representante do reino para a Europa e a recep\u00e7\u00e3o de padres portugueses para a propaga\u00e7\u00e3o da f\u00e9 cat\u00f3lica, posteriormente adotaria um nome cat\u00f3lico e passou a se chamar JO\u00c3O I, sucedido posteriormente por AFONSO I. Na verdade, por um lado houve apenas a adapta\u00e7\u00e3o do cristianismo \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es locais e do outro apenas o interesse por metais e depois pela escraviza\u00e7\u00e3o dos africanos para fins comerciai, principalmente ap\u00f3s 1500 quando Portugal invadiu o Brasil. As rela\u00e7\u00f5es come\u00e7aram a se deteriorar.<\/p>\n<p>Apesar do estremecimento nas rela\u00e7\u00f5es durante o s\u00e9culo XVI o rei portugu\u00eas possu\u00eda um problema maior para tratar chamado RAINHA NZINGA, que at\u00e9 1663 (ano de sua morte) foi o grande obst\u00e1culo a domina\u00e7\u00e3o portuguesa no continente, seu nome e imagem est\u00e3o vivos at\u00e9 hoje na hist\u00f3ria da \u00c1frica. Em parte, com os mais de 40 anos de guerra com os reinos de NDONGO e MATAMBA, comandados por ela, a col\u00f4nia de Luanda teve que ser fortalecida e ap\u00f3s a morte da rainha, s\u00f3 restaria um obst\u00e1culo para o dom\u00ednio total da regi\u00e3o, o Congo. At\u00e9 1590, j\u00e1 tinham morrido 1700 europeus em Angola pelas batalhas ou pelas doen\u00e7as tropicais. O Manicongo foi aliado de Portugal, chegando at\u00e9 enviar um ex\u00e9rcito em 1579 para ajudar nas batalhas, mas no in\u00edcio do s\u00e9culo XVII, Luanda se tornou a col\u00f4nia portuguesa mais poderosa da \u00c1frica, pelo seu porto passou milh\u00f5es de negros escravizados, min\u00e9rios e tecidos. O apoio do Congo j\u00e1 era dispens\u00e1vel.<\/p>\n<p>Em seguida iniciou-se uma disputa pol\u00edtica por pequenos reinos semi-independentes chamados DEMBOS, localizados na fronteira com Congo, numa expans\u00e3o portuguesa que culminou na sua invas\u00e3o e tomada de uma parte do sul congol\u00eas, chamada AMBUILA. Havia uma disputa interna dentro desse Dembo, a qual Portugal se aproveitou para apoiar um cl\u00e3 e ocupou o local, o Manicongo mandou seu ex\u00e9rcito para a regi\u00e3o, foi a ruptura definitiva da alian\u00e7a.<\/p>\n<p>O grande destaque dessa guerra foi um povo, que se tornou o mais temido da \u00c1frica Central, os lend\u00e1rios JAGAS (tamb\u00e9m conhecidos como Imbangala). Ainda se discute a origem desse povo, mas acredita-se que tamb\u00e9m tenham emigrado do IMP\u00c9RIO LUNDA, rejeitando as mudan\u00e7as pol\u00edticas daquele estado. Tornaram-se n\u00f4mades e seu povo se dividiu em v\u00e1rias \u00e1rvores geneal\u00f3gicas, uma se aliou a empresa colonial portuguesa e viraram um ex\u00e9rcito de mercen\u00e1rios, introduzidos na regi\u00e3o que hoje \u00e9 o territ\u00f3rio de Angola, os Jagas se estabeleceram, formando o reino de Kasanje no rio Kwango. Outro cl\u00e3, que se deslocou para o interior, foi aliado da rainha Nzinga o qual submeteu Portugal a in\u00fameros derrotas.<\/p>\n<p>Eram sociedades totalmente militarizadas, baseadas inteiramente em RITOS DE INICIA\u00c7\u00c3O, em oposi\u00e7\u00e3o aos ritos de parentesco costumeiros da maioria dos grupos \u00e9tnicos africanos. Para evitar que o parentesco substitu\u00edsse a inicia\u00e7\u00e3o, as mulheres foram autorizadas a deixar o QUILOMBO (aldeia) para ter seus filhos, mas quando voltavam, a crian\u00e7a n\u00e3o era considerada um Jaga at\u00e9 ser iniciada. Em uma tradi\u00e7\u00e3o quase ESPARTANA, as crian\u00e7as eram treinadas diariamente em grupos e combates individuais. Durante o treinamento, eles usavam uma coleira que n\u00e3o podia ser removida, mesmo ap\u00f3s a inicia\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que matassem um homem em batalha. Crian\u00e7as nascidas na aldeia eram mortas. Outra tradi\u00e7\u00e3o desenvolvida com o tempo foi acolher crian\u00e7as capturadas em cativeiro e integr\u00e1-las ao seu estilo de vida.<\/p>\n<p>A batalha ocorreu segundo cronistas com a lideran\u00e7a de LUIZ LOPES SEQUEIRA para as tropas portuguesas, seu nome est\u00e1 nas ruas e na hist\u00f3ria da cidade comandou 360 mosqueteiros portugueses e de 6 a 7 mil jagas, de um lado. E do outro, partira o pr\u00f3prio rei com o grosso das suas for\u00e7as, que iam aumentando \u00e0 partida que se deslocavam. Ao seu lado encontravam\u2013se o Duque de BAMBA, capit\u00e3o general das for\u00e7as congolesas, o poderoso Conde de SONHO, entre outros nobres, segundo o historiador ANTONIO OLIVEIRA DE CARDONEGA. Durante a batalha, o rei foi morto e decapitado e sua cabe\u00e7a espetada e erguida em cima de uma lan\u00e7a alta, o fato desmobiliza o ex\u00e9rcito congol\u00eas, que parte em retirada. Em sua persegui\u00e7\u00e3o, lan\u00e7aram\u2013se os temidos Jagas, calcula-se terem morrido em torno de cinco mil congoleses, entre eles 400 fidalgos da alta nobreza.<\/p>\n<p>Historiadores consideram essa Batalha a causadora da divis\u00e3o e fim do poderoso reino do Congo, pois com a morte de quase toda a sua nobreza houve uma lacuna de poder e seguidos conflitos internos causaram a cis\u00e3o do reino. Sem a oposi\u00e7\u00e3o do ex-poderoso Congo, o sequestro de africanos para a escravid\u00e3o se consolidou na \u00c1frica Central.<br \/>\nNo Brasil, todas essas batalhas podem ser vistas, atrav\u00e9s de nossas tradicionais CONGADAS, manifesta\u00e7\u00e3o cultural do sudeste brasileiro nascida nas cidades mineiras que reproduzem as batalhas e coroa\u00e7\u00f5es dos reis do Congo e Mo\u00e7ambique, atrav\u00e9s da cultura popular se traz todas essas mem\u00f3rias escondidas dentro das ritualidades e liturgias, porque no Brasil n\u00e3o se ensina essas tradi\u00e7\u00f5es dentro das escolas? Algu\u00e9m se arrisca a dizer?<\/p>\n<p>Obs: Gravura do texto \u00e9 do Capuchinho Bernardino Ignazio, pintado no Congo em 1740.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 Luiz S. Marinho<\/p>\n<p>(Contramestre de capoeira Angola e pesquisador de cultura popular)<\/p>\n<p>Veja mais sobre cultura brasileira:<br \/>\nInstagram &#8211; @bondeangola<br \/>\nFacebook &#8211; Andre Marinho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No final de outubro de 1665, houve o \u00faltimo grande conflito na \u00c1frica, no s\u00e9culo XVII, entre um reino africano e o imp\u00e9rio portugu\u00eas. O resultado dele trouxe a estrutura necess\u00e1ria para o crescimento do tr\u00e1fico negreiro criado por Portugal e o fortalecimento do regime escravocrata no Brasil-col\u00f4nia. 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