{"id":714,"date":"2020-04-18T01:49:04","date_gmt":"2020-04-18T01:49:04","guid":{"rendered":"http:\/\/ipcb-rj.com.br\/?p=714"},"modified":"2023-02-28T14:12:23","modified_gmt":"2023-02-28T14:12:23","slug":"madame-sata-o-rei-da-lapa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/ipcb-rj.com.br\/?p=714","title":{"rendered":"Madame Sat\u00e3 &#8211; o rei da Lapa"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/ipcb-rj.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Mme-com-chap\u00e9u.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-715\" src=\"http:\/\/ipcb-rj.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Mme-com-chap\u00e9u-227x300.jpg\" alt=\"Mme com chap\u00e9u\" width=\"227\" height=\"300\" srcset=\"http:\/\/ipcb-rj.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Mme-com-chap\u00e9u-227x300.jpg 227w, http:\/\/ipcb-rj.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Mme-com-chap\u00e9u-775x1024.jpg 775w, http:\/\/ipcb-rj.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Mme-com-chap\u00e9u-710x937.jpg 710w, http:\/\/ipcb-rj.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Mme-com-chap\u00e9u-320x422.jpg 320w, http:\/\/ipcb-rj.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Mme-com-chap\u00e9u.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 227px) 100vw, 227px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&#8221; &#8230; <em>Brigar eu n\u00e3o brigo porque eu nunca briguei, mas na minha casa a gente come o que Deus d\u00e1 e o que faltar Nossa Senhora inteira<\/em>&#8230;.&#8221;<br \/>\n(Madame Sat\u00e3, entrevista para o Pasquim em 1971).<\/p>\n<p>No \u00faltimo dia 12 de abril, h\u00e1 44 anos, morria Jo\u00e3o Francisco dos Santos. Nascido em Gl\u00f3ria do Goit\u00e1, no dia 25 de fevereiro de 1900, filho de Manoel Francisco dos Santos e Firmina Teresa da Concei\u00e7\u00e3o teve 16 irm\u00e3os e veio de uma fam\u00edlia muito humilde, era neto de escravos e via a fome e mis\u00e9ria como destino certo em sua cidade. Foi vendido em troca de uma \u00e9gua para um negociante local, S. Laureano, que o levou para o Recife para cuidar de cavalos.<\/p>\n<p>Em uma viagem at\u00e9 a Para\u00edba, conheceu uma senhora chamada Dona Felicidade e aceita o convite para fugir para o RJ, mas diferente de seu nome encontrou s\u00f3 tristeza trabalhando numa pens\u00e3o aberta por ela de nome &#8220;ITABAIANO&#8221;. Passava os dias lavando roupas e limpando o espa\u00e7o sem receber sal\u00e1rio, sem estudar e sem dia de descanso. Isso se estendeu at\u00e9 os 13 anos de idade, quando ele resolveu fugir e morar nas ruas e nelas foi aonde se passou grande parte de seu aprendizado. Foi vendedor ambulante, gar\u00e7om, cozinheiro e fez servi\u00e7os de faxina nos v\u00e1rios bord\u00e9is da Lapa e neles descobriu sua homossexualidade, sua conviv\u00eancia entre mulatas, polacas e francesas o aproximou cada vez mais desse universo feminino.<\/p>\n<p>Talvez essa seja a fase menos conhecida, por\u00e9m n\u00e3o menos interessante do ent\u00e3o jovem Jo\u00e3o, pois na &#8220;escola da malandragem&#8221; conviveu com os bambas da sua regi\u00e3o como SATURNINO, MEIA-NOITE, CAMISA PRETA, BETO-BATUQUEIRO, GAVI\u00c3O, MIGUELZINHO, PEDRINHO DO CATETE, BRANCURA (sua grande paix\u00e3o) e aquele ao qual ele sempre se reportava como seu mestre e protetor, o valent\u00e3o (e provavelmente capoeirista, pois foi capad\u00f3cio na Bahia) SETE COROAS, que teria lhe ensinado tudo sobre &#8220;o jogo, a navalha, o papo, a rasteira e a valentia&#8221;, de acordo com ROG\u00c9RIO DURST, pesquisador que escreveu um livro sobre ele cuja obra teria inspirado Chico Buarque escrever &#8220;A \u00f3pera do malandro&#8221;.<\/p>\n<p>A noite da Lapa da d\u00e9cada de 20 e 30 do s\u00e9culo passado era movimentada por jovens atr\u00e1s de sexo, funcion\u00e1rios p\u00fablicos, jornalistas, intelectuais,, ladr\u00f5es, bo\u00eamios e nomes famosos da m\u00fasica como Cartola, Nelson Gon\u00e7alves, Z\u00e9 Keti, entre outros. Atrav\u00e9s da atriz SARA NOBRE ele entra no circuito alternativo de teatro, antigo desejo desde a turn\u00ea da companhia de dan\u00e7a francesa BATACLAN na cidade, e inicia suas performances criando os personagens: &#8220;Mulata do Balacoch\u00ea&#8221;, &#8220;Jamacy&#8221; e &#8220;Gato Maracaj\u00e1&#8221;. Era um homossexual assumido, mas nunca admitiu desrespeitos e ofensas e por esse motivo se envolveu em v\u00e1rias brigas, ficando famoso por seu poderoso murro de esquerda, que lhe deu a alcunha na \u00e9poca de &#8220;Caranguejo&#8221;, seu primeiro apelido.<\/p>\n<p>O ano de 1928 mudaria sua vida ao avesso quando voltando de uma apresenta\u00e7\u00e3o se envolveu numa confus\u00e3o com um vigilante noturno chamado de Alberto, que o chamou de &#8220;VEADO&#8221; num caf\u00e9, aonde ele lanchava antes de ir para casa. O malandro respondeu ao desaforo e se iniciou uma briga, ap\u00f3s tomar uma pancada com cassetete no rosto, sacou uma arma e o matou, passando a ser condenado a 16 anos cumpriu 2 anos no Pres\u00eddio da ILHA GRANDE e foi absolvido por leg\u00edtima defesa. Sua vida nunca mais seria a mesma, tendo escapado de duas emboscadas feitas pelos irm\u00e3os do policial falecido. Preto, pobre, malandro e homossexual Jo\u00e3o n\u00e3o teria mais espa\u00e7o nos palcos de teatro da cidade e teve que ganhar a vida realizando um novo tipo de servi\u00e7o ao qual passou a ser solicitado, &#8220;seguran\u00e7a das casas de toler\u00e2ncia&#8221; e bares do bairro ou LE\u00c3O DE CH\u00c1CARA, como se chamava popularmente. Na d\u00e9cada de 30, Caranguejo \u00e9 o maior protetor das &#8220;bichas&#8221;, prostitutas e com\u00e9rcio do bairro da Lapa com sua camisa de seda, cal\u00e7a fina, tamanco, an\u00e9is enchendo os dedos, chap\u00e9u Panam\u00e1 (sua marca registrada) e navalha no bolso, as brigas se tornam parte do seu dia a dia. Aceitava como pagamento dinheiro, refei\u00e7\u00f5es e caf\u00e9s, por isso sempre foi muito querido pelos comerciantes da regi\u00e3o. Tamb\u00e9m foi nesse per\u00edodo que ganhou o apelido que o acompanharia at\u00e9 a sua morte.<\/p>\n<p>Em 1938 participou do concurso de fantasias do baile de carnaval no Teatro Rep\u00fablica, pr\u00f3ximo da pra\u00e7a Tiradentes, representando o bloco de carnaval de rua CA\u00c7ADORES DE VEADOS, criado por outros gays amigos seus e era a oportunidade deles travestirem-se com roupas vistosas para as festas de carnaval. Era realmente um desfile que atra\u00eda turistas de todas as partes do Brasil e de pa\u00edses estrangeiros. Os concorrentes ganhavam pr\u00eamios bons e destaques nos jornais, Jo\u00e3o se fantasiou de morcego e foi campe\u00e3o com ampla cobertura da imprensa. Dias depois foi detido andando no Passeio P\u00fablico e levado para averigua\u00e7\u00e3o na delegacia da \u00e1rea, junto com outros companheiros. L\u00e1 foi reconhecido pelo Comiss\u00e1rio de Pol\u00edcia e como n\u00e3o quis dar seu nome foi fichado com a &#8220;alcunha&#8221; de MADAME SAT\u00c3, nome de um filme que passava nos cinemas da cidade na \u00e9poca de Cecil B. DeMille, o apelido pegou.<\/p>\n<p>A oralidade carioca eternizou alguns momentos ainda pouco explorados como suas brigas com Osvaldo Nunes e Nelson Rodrigues, que j\u00e1 foi pugilista (consideradas lend\u00e1rias), tamb\u00e9m quando foram chamadas 8 (oito) viaturas do Batalh\u00e3o do Choque da PM (na \u00e9poca chamadas de &#8220;Socorro urgente&#8221;) para cont\u00ea-lo e prend\u00ea-lo, pois tinha batido em mais de 8 policiais, al\u00e9m da infeliz noite que GERALDO PEREIRA quis &#8220;tentar a sorte&#8221; e conheceu o famoso soco de canhota do caranguejo que o levou a morte, entre outras.<\/p>\n<p>Na bo\u00eamia, al\u00e9m da malandragem conviveu e fez amizade com muitos artistas que integraram a Era de Ouro das r\u00e1dios nacionais, dentre os quais Chico Alves, Noel Rosa, Orlando Silva, Vicente Celestino e Aracy de Almeida.<br \/>\nNa cadeia, afirmava ter convivido com muitos presos famosos na \u00e9poca como Feliciano e Febr\u00f4nio \u00cdndio do Brasil e os famosos Greg\u00f3rio (seguran\u00e7a do presidente Get\u00falio Vargas) e Lu\u00eds Carlos Prestes.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s sair de sua \u00faltima pris\u00e3o, em 1965, Sat\u00e3 decidiu abandonar a Lapa e permanecer em Ilha Grande. Nessa \u00e9poca, ele trabalhava como cozinheiro em casas de fam\u00edlia e at\u00e9 mesmo fazia faxinas nas casas de ex-policiais e funcion\u00e1rios. Em 1971 concedeu uma pol\u00eamica entrevista a o jornal &#8220;O PASQUIM&#8221;, que se dedicava a contracultura brasileira, numa forma rebelde de enfrentar a Ditadura Militar e possu\u00eda uma tiragem mensal de 200 mil exemplares. O jornal publicou outra ap\u00f3s sua morte.<\/p>\n<p>A entrevista se torna um verdadeiro ensaio etnogr\u00e1fico sobre os modos de viver e sobreviver na malandragem carioca da d\u00e9cada de 20 e 30. Ap\u00f3s o sucesso da entrevista, foi convidado a escrever um livro de mem\u00f3rias (&#8220;MEM\u00d3RIAS DE MADAAME SAT\u00c3&#8221; pela Editora Lidador) por Sylvan Paezzo, o livro foi publicado em 1972. Voltou a fazer parte de pe\u00e7as de teatro e shows, abrindo portas para novos talentos como T\u00e2nia Alves e Elba Ramalho, mas um pouco tempo depois retornou para Ilha Grande, dizia que aquela Lapa da d\u00e9cada de 70 j\u00e1 n\u00e3o o encantava mais: &#8220;&#8230; guardei minha querida Lapa do meu tempo no meu peito &#8230;&#8221;. Na verdade, o bairro estava em franca decad\u00eancia e foi perdendo status de bairro bo\u00eamio para a nova Copacabana, a partir da d\u00e9cada de 50.<\/p>\n<p>Em 1974, foi lan\u00e7ado o filme &#8220;RAINHA DIABA&#8221;, que conta a vida de um transformista marginal, interpretado por Milton Gon\u00e7alves, inspirado nele e, em 2002, foi lan\u00e7ado o filme &#8220;Madame Sat\u00e3&#8221;, drama biogr\u00e1fico com L\u00e1zaro Ramos no papel principal. Em 1990, foi tema do enredo da escola de samba Lins Imperial e recebeu v\u00e1rias outras homenagens pela televis\u00e3o.<br \/>\nInfelizmente, em fevereiro de 1976, Madame Sat\u00e3 foi encontrado internado em um hospital em Angra dos Reis, um munic\u00edpio situado no sul do Rio de Janeiro, como indigente, Jaguar (cartunista e jornalista do &#8220;O Pasquim&#8221;) o resgatou e o transferiu para um hospital na Zona Sul do Rio de Janeiro, no bairro de Ipanema. Mesmo assim ele morreu ap\u00f3s ter complica\u00e7\u00f5es de um c\u00e2ncer no pulm\u00e3o. Alguns dizem que tamb\u00e9m ele era portador de HIV. No dia 12 de abril de 1976, Madame Sat\u00e3 foi sepultado na Vila do Abr\u00e3ao, na Ilha Grande, lugar escolhido para morar e passar seus \u00faltimos anos, aonde era muito requisitado como cozinheiro e tamb\u00e9m para contar seus &#8220;causos&#8221;, inacredit\u00e1veis para muitos !!!<\/p>\n<p>\u00c9 considerado o \u00faltimo malandro da Lapa, imbat\u00edvel com a navalha na m\u00e3o, um dos &#8220;marginais&#8221; mais famosos do pa\u00eds. Respondeu a 28 processos criminais, sendo absolvido em 19 (entre eles 3 homic\u00eddios, 13 agress\u00f5es e 4 resist\u00eancias a pris\u00e3o, al\u00e9m de outros delitos menores).<\/p>\n<p>Sempre ficar\u00e3o no ar v\u00e1rios questionamento sobre a vida do velho malandro, se ele vivesse nos dias de hoje, seria marginal ou artista nacional ? Hoje ele conseguiria fugir dessa sina do submundo, destino das classes sociais mais pobres ? N\u00e3o teria ele pagado o pre\u00e7o, por ter sido s\u00edmbolo de uma silenciosa &#8220;resist\u00eancia&#8221; social, Como ser um homossexual assumido, na d\u00e9cada de 20 do s\u00e9culo XIX? Ser um negro que n\u00e3o abaixava a cabe\u00e7a para o racismo? Fugir do estere\u00f3tipo desejado pela pol\u00edtica de Vargas?<\/p>\n<p>Sua sombra ainda paira nos Arcos da Lapa e nos because da velha cidade ex-maravilhosa !!!!<\/p>\n<p>Andr\u00e9 Luiz S. Marinho<\/p>\n<p>(Contramestre de capoeira Angola e pesquisador de cultura popular)<\/p>\n<p>Veja mais sobre cultura brasileira em:<\/p>\n<p><span style=\"\">Instagram &#8211; @bondeangola<\/span><br \/>\n<span style=\"\">Facebook &#8211; Link: <\/span><span style=\"\">https:\/\/www.facebook.com\/andre.marinho.9277\/posts\/10217027511386418<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8221; &#8230; Brigar eu n\u00e3o brigo porque eu nunca briguei, mas na minha casa a gente come o que Deus d\u00e1 e o que faltar Nossa Senhora inteira&#8230;.&#8221; (Madame Sat\u00e3, entrevista para o Pasquim em 1971). No \u00faltimo dia 12 de abril, h\u00e1 44 anos, morria Jo\u00e3o Francisco dos Santos. 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